Este artigo contém spoilers sobre o quadrinho Watchmen.
Imagine um universo onde super-heróis existem. Eles não são, porém, fantásticos ou sobre-humanos; as únicas coisas que os diferenciam das outras pessoas, na verdade, são que eles fazem justiça — da forma que lhes convêm — e que andam por aí trajando fantasias. A outra peculiaridade desse universo é que, na metade do século XX, um físico chamado Jonathan Osterman foi envolvido em um acidente de laboratório que fez com que ele ganhasse poderes divinos. A exata natureza das suas habilidades não fica clara, mas ele parece poder alterar a matéria da forma que ele quiser. Ele pode transmutar átomos, levitar objetos, teleportar-se, desintegrar coisas e aumentar o próprio tamanho. Ele pode até formar um novo corpo para si, caso um de seus corpos seja destruído. Osterman é americano, e ele apoiou o governo de seu país durante a Guerra do Vietnã. Em consequência disso, os Estados Unidos ganharam a guerra, e a URSS nunca se desfez. Esse universo está no que seria equivalente aos nossos anos 80, e a Terra está a prestes a entrar em uma guerra nuclear entre os soviéticos e os americanos.

Capa dos Watchmen em uma edição moderna
Assim é o cenário descrito por Alan Moore em seu magnum opus, o Watchmen, que deve estrear em sua versão cinematográfica em março do ano que vem. Dizer que algo é a obra-prima de alguém como Moore é de fato significativo. Essa série de quadrinhos (com 12 volumes) foi um marco na indústria dos comics. Não só ele foi um trabalho de metalinguagem então inédito, como também uma publicação de literatura repleta de simbolismo. Por isso, o Watchmen transcende o que os quadrinhos eram na década de 80 (ou antes de Alan Moore, alguns diriam), e alcança o estado de obra de arte. Alan Moore não tenta fazer com que seus trabalhos mimetizem outros gêneros; ele busca explorar tudo o que graphic novels têm a oferecer. Por isso, uma grande quantidade de fãs argumenta que o Watchmen é simplesmente impossível de converter para cinema. Eles citam casos como o do volume Fearful Symmetry, onde cada quadrinho tem forma simétrica ao quadrinho diametralmente oposto a ele. Essa e outras técnicas não podem ser transportadas para outros gêneros.

Veja como cores quentes e frias se alternam nestas páginas do Fearful Symmetry
Somos apresentados à história pelo diário de um dos Vigilantes, o Rorschach. Ele incorpora — ou melhor, é um produto de — o mundo decadente e podre em que o planeta Terra se tornou. Enquanto Rorschach, ele é, talvez, o único dos Vigilantes que não tem ambições pessoais. Ele sabe que o mundo está prestes a ser destruído em um inferno nuclear, e ele sabe que, não importa o que ele faça, suas ações não terão muita diferença no resultado final das coisas. Mesmo assim, ele não se rende. Ao mesmo tempo em que defende os ideais tidos como positivos nos quadrinhos de forma geral, não entende bem o que defende. Se ele faz justiça, não é por altruísmo, mas por vingança e desgosto (e ele diz ainda no primeiro volume: “[Eles] vão olhar para cima e gritar: ‘Salve-nos!’, e eu sussurrarei: ‘Não’”). O sonho americano que ele defende morreu junto com o Comediant, mas, não tendo uma identidade para assumir (Kovaks não existe mais, ele diz), ele continua sendo apenas sua máscara de justiceiro. No volume 12, quando Rorschach tira a máscara e se permite emoção, ele é destruído.

Rorschach e sua máscara expressiva
O Comediant, que, embora esteja morto no começo do quadrinho, é um dos protagonistas, assemelha-se muito a Rorschach. A diferença principal é que ele entende plenamente que os ideias que ele defende não fazem sentido. Ele sabe que é porque esses ideais dominaram o século XX que o mundo está à beira da destruição. Diferentemente de Rorschach, ele entende plenamente seus objetivos, e, mesmo assim, os abraça. Por meio ele, Alan Moore passa uma das mais evidentes (e superficiais) mensagens do quadrinho: o sistema (republicano) é falho. A política direitista de governo americano não funciona a longo prazo. No final, ela só leva a caos. Uma das passagens memoráveis do quadrinho trata exatamente disso. Nessa passagem, relatada no volume dois, há um flashback no qual o Comediant e o Nite Owl estão contendo um protesto contra os Vigilantes. Vendo o caos nas ruas, Nite Owl começa a duvidar de suas atitudes. Em determinado momento, ele pergunta: “E o sonho americano? O que aconteceu com ele?”, e o Comediant responde: “Se tornou realidade. Você está olhando para ele.”.
Muito acima de tudo isto está Jon Osterman, o Doctor Manhattan. Por várias alusões (como por sua cada vez maior insistência em usar seus poderes, culminando com ele andando sobre a água no volume 12), Moore mostra que ele é uma espécia de Übermensch nietzchiano, um Superhomem, um deus. Mas o Deus cristão não existe no mundo dos Watchmen. Todo o sub-enredo de Rorschach e seu psiquiatra servem para mostrar que Deus não existe. Ele morreu. Manhattan é o novo deus, o deus do século XX, nascido da ciência. Além de mover o enredo, Moore também usa esse personagem como doutrinador de uma outra corrente filosófica: o Determinismo. Tudo o volume 4 é direcionado a esse objetivo. Embora isso não se relacione muito com resto do enredo, a ênfase dedicada a essa idéia deixa claro que esse é um dos pontos filosóficos principais da série.

Doctor Manhattan divinizado
Por fim, entre os personagens de forte valor moral no quadrinho, está Ozymandias. Neste ponto entra em jogo outro exemplo de como alguns detalhes do quadrinho podem mudar completamente seu sentido: cada volume do Watchmen termina com uma citação; o volume 11 termina com dois versos do poema Ozymandias, de Percy Shelley: “Meu nome é Ozymandias, rei dos reis/Contemplem minha obra, poderosos, e se desesperem!”. À primeira vista, a citação poderia estar lá apenas para louvar Ozymandias (o personagem) e seus trabalhos, expostos no mesmo volume. Pesquisando sobre o poema completo, porém, descobre-se que Shelley na verdade expõe a fragilidade da humanidade defronte ao tempo, e zomba de sua arrogância. Isso dá um sentido completamente diferente ao personagem, que passa a ser de herói/vilão a simplesmente outro humano (ainda que um humano excepcional, que atinge o máximo de seu potencial) com crises de personalidade.
Em paralelo direto com Ozymandias, e talvez em parte como explicação para sua personalidade, está o que talvez seja o maior trunfo de Watchmen. Em algumas páginas entre partes do enredo principal, há a história do Tales of the Black Freighter. Essa história-dentro-da-história não só é uma inovação no gênero de HQs, como também é uma chave para entender o enredo principal. Ozymandias, como Rorschach, e como a política dos EUA durante a maior parte do século XX, tentou combater uma força que se opunha aos seus ideais. Nesse conflito, ele se tornou essa força.

Trecho do Black Freighter
Os outros dois Vigilantes que, junto com Rorschach, formam o corpo principal dos protagonistas são Nite Owl e Juspeczyk. Eles são, na história, os personagens inocentes. Nenhum deles está seriamente engajado na luta pela defesa de seus ideiais (Juspeczyk nunca escolheu ser Vigilante, e Nite Owl o fez como prática de um hobby). Diferente de personagens mais extremos, como Rorschach e Ozymandias, eles buscam realizar seus objetivos pessoais antes de qualquer outra coisa. Quando eles descobrem os planos de Ozymandias no final da história, depois de um choque inicial, eles continuam vivendo. Buscando conforto um no outro, eles conseguem seguir em frente. Assim, de certa forma, eles são os únicos personagens sãos do quadrinho. A insinuação dessa ideia é que, em um mundo terrível, a única coisa que faz sentido é buscar a felicidade. Manhattan compreende isso quando ele vê os dois juntos no volume 12 e, sorrindo, vai até Ozymandias para anunciar que ele vai para uma “galáxia menos complicada”.
Alan Moore disse que seu objetivo no Watchmen era criar algo que convencesse o mercado que gibis não são coisa de criança. Ele fez muito mais do que isso. Ainda mais que em seus trabalhos precedentes, Moore criou uma obra de arte. Sua sátira-homenagem ao gênero dos quadrinhos é literatura — e merece ser tratada como tanto. A adaptação para o cinema que deve sair em 2009 certamente não poderá transportar tudo o que o original tem, pois nenhuma transferência de mídia é perfeita. Esperemos, porém, que o filme tenha um pouco do que colocaram no V de Vingança, e seja bom o suficiente para entreter.