Carta aberta ao povo brasileiro

Se você quiser saber de onde isto veio, leia este artigo da Folha publicado hoje.

Carta aberta ao povo brasileiro

Tendo em vista o barateamento e a viabilização burocrática da criação de instituições religiosas em nosso país, vimos por meio desta comunicar-lhes nossa intenção de fundar, em nome da comunidade ateia nacional, a primeira Arquiantropocese da Igreja Multi-Universal Ateísta do Brasil (IMUAB).
Nunca ignorantes da ironia de nossa sigla, optamos por fazer da IMUAB uma instituição religiosa por dois motivos: em primeiro lugar, justamente por causa dela. Em segundo lugar, por causa dos benefícios fiscais e sociais de que gozam igrejas e seus fiéis. Seremos, por exemplo, isentos de impostos, poderemos ter um código de conduta próprio e estaremos livres, por constituição, de qualquer ingerência do Estado sobre nossas práticas, desde que sejam elas (razoavelmente) legais.
Sendo o cerne de nossos princípios a transparência e o anti-obscurantismo, antecipo-lhes alguns dos fundamentos em que basear-se-á nossa não-fé:

Dos membros:

  1. Será condição fundamental de elegibilidade como membro da IMUAB o bom-senso;
  2. Será negada a adesão a seres onipotentes, oniscientes e/ou onipresentes (seres onívoros são permitidos), assim como àqueles incapazes de provar a própria tangibilidade;
    • Parágrafo único: indivíduos ectoplasmáticos, inteligências superiores e/ou mitológicas capazes de adquirir forma material serão aceitos como membros com pleno direito de voto desde que reconheçam suas não-existências.

Dos cumprimentos:

  1. A única saudação oficial de nossa não-fé consistirá em exclamar, ao encontrar outro membro: “Louvado seja o Senhor!”, ao que o outro deverá responder: “Muito obrigado, o Senhor também!”.

Das celebrações:

  1. As celebrações da IMUAB serão denominadas in-cultos;
  2. As vestimentas de nossos sacerdotes consistirão de minissaias para as mulheres e bermudas acompanhadas de camisetas do tipo regata para homens. Não é permitido o uso de trajes que permitiriam acesso à Uniban;
  3. Em conformidade com nossos princípios anárquicos, nenhum indivíduo presidirá os in-cultos, salvo nas seguintes circunstâncias:
    1. Na manifestação dos fantasmas ou reencarnações de Sartre, Bertrand Russel, Carl Sagan ou Douglas Adams;
    2. Nas sessões do Tribunal da Profana Exaltação, na qual um membro eleito presidente poderá distribuir abraços e queimar incenso para os infiéis.

Das proibições e permissões:

  1. Serão absolutamente permitidos os atos de ler de qualquer livro, assistir a qualquer filme ou espetáculo e ouvir qualquer música;
  2. Será absolutamente proibida qualquer tentativa de convencer um adepto de outra crença a aderir à nossa. Isso é inútil e incômodo. Adesões serão plenamente voluntárias e terão iniciativa própria;
    • Parágrafo único: será proibida aos membros qualquer forma de intolerância.
  3. Será absolutamente proibida qualquer doação material à nossa Igreja posterior à sua fundação. A IMUAB não terá, jamais, recintos físicos.

Uma vez cientes do exposto acima, pedimos aos interessados doações para a oficialização de nossa Igreja, que hoje custaria R$418,00, incluindo gastos com cartório. Uma vez concluído esse processo inicial, proponho um in-culto de inauguração conduzido ao som de Pink Floyd e finalizado por uma exibição de A Vida de Brian.

Respeitosamente,
Arthur Prado (o plural era majestático).

A Rede Mundial: do Homo Virtuens ao comunismo utópico

Há mais ou menos um ano, me preparando para um vestibular da Unicamp, eu escrevi uma dissertação sobre os efeitos sociais da Internet. Como eu gostei do resultado, eu a mandei para a Tribuna Impressa, um jornal de Araraquara, que acabou por publicá-la. Aparentemente, a notícia não está mais no ar, então eu achei que não haveria problema de eu postá-la aqui. Segue o texto (que foi feito para papel impresso, então não tem links):

A inevitabilidade de mudança criada pela Internet é evidente. A Web já nos obrigou a rever conceitos anteriormente inflexíveis, como Copyright, Distância e Relações Interpessoais, e isso tudo em menos de meio século de existência. Esses dados são de conhecimento geral. O que não é comumente percebido é o potencial que a Rede tem de revolucionar positivamente nosso mundo, dos pontos de vista político, econômico e moral, principalmente.
A partir do fim da década de 90, um novo arquétipo social começou a mostrar suas caras nos grandes centros urbanos. Esse indivíduo recluso, fanático por tecnologia e incapaz de relacionar-se socialmente foi apelidado pelo sociólogo francês Étienne Barral de Homo virtuens. Essas pessoas marginais ao grupo podem mostrar-se uma forma eficiente de analisar o efeito que a Internet provavelmente terá sobre a comunicação humana no mundo todo. Os Homo virtuens, e nesse sentido eles se assemelham muito aos Otaku (tipo social japonês semelhante ao nerd americano), têm a tendência de desenvolver pouca ou nenhuma relação com outras pessoas fora da Web. Sua eloqüência nas mensagens de texto contrasta com a dificuldade de comunicar-se que essas pessoas têm na vida real. Todo seu círculo de relações é cultivado por computador. Os impactos que esse hábito tem sobre a sociedade em geral é obviamente negativo, mas, investigando mais a fundo, pode-se perceber um benefício inerente aos relacionamentos virtuais tão praticados pelos Homo Virtuens. Esse benefício, a possibilidade da criação de uma utopia ancestral, a sociedade igualitária, é posto em prática por um conceito que só foi possível com a Rede: o wiki.
“Internet é camaradagem”. Essa frase nunca teve tanto destaque quanto no começo do século XXI. Toda a Web é baseada na troca gratuita de informação. Seja compartilhando arquivos em um programa peer to peer ou simplesmente publicando uma página, você disponibiliza conhecimento a preço nenhum. O que os wikis fizeram foi organizar isso. Um wiki é um sistema virtual que visa criar algum conteúdo em grupo. Para se ter uma idéia do impacto desses sistemas, o wiki mais conhecido, a Wikipedia (uma enciclopédia organizada por usuários da Internet), tem, só em sua versão em inglês, quase dois milhões de verbetes, mais que o dobro da enciclopédia offline mais renomada, a British Enciclopedia. Ora, o que impede que, uma vez que a humanidade incorpore definitivamente a Internet, ela não comece a aplicar os Wikis de uma forma mais extensiva? A final, uma vez que se compartilha informação, compartilhar bens de produção está a menos de um passo de distância. Em uma sociedade assim, não seria sequer necessária a pressão do governo para que os cidadãos cooperassem uns com os outros: eles o fariam normalmente, como fazem na Rede. Seria um comunismo utópico, como até Marx invejaria. Dessa forma, a nova moral criada pela Web torna-se a mentalidade dominante.
E a Internet só tende a crescer. No começo de 2007, a empresa mais valiosa do mundo, com o preço estimado de aproximadamente 66 bilhões de dólares, só criava conteúdo para a Web. Essa empresa é o Google, uma companhia de fundo-de-quintal que em menos que quinze anos passou a dominar o mercado mundial. Isso, sem contar a Microsoft, também unicamente voltada às novas tecnologias, e a Apple, criadora do iPod e do primeiro computador pessoal, que estão entre as 30 empresas mais caras do mundo.
Como uma consideração final, a Internet inegavelmente tem aspectos ruins. O que os críticos assíduos frequentemente falham em ver, é que ela também tem diversos aspectos (muito) positivos, e que eles não são mais idéias longínquas para o futuro, mas forças presentes e já atuantes em nossa sociedade. A internet mudou as pessoas (e a forma como elas se relacionam) irreversivelmente. Cabe à humanidade estimular a capacidade de alteração da Web e fazer uso dela como um elemento revolucionário para criar um mundo melhor.

Férias

É uma pena que eu tenha que publicar um post destes apenas três meses depois do lançamento do blog, mas acho que é inevitável. E não é como se eu estivesse encerrando o blog, de qualquer forma.

Vamos ao ponto: uma mistura de fatores incluindo exigências de um colégio integral, acesso limitado à Internet e a proximidade de um exame difícil que eu vou ter que prestar fazem com que eu seja obrigado a me afastar um pouco do Forty-Two até o dia 5 de janeiro de 2009. Isso não significa que eu não vou postar, significa que eu não me comprometo a fazê-lo. Eu não vou postar o Internet Weekly até lá e é improvável que haja mais de um post novo por mês. Dito isso, depois de janeiro eu poderei escrever aqui mais de uma ou duas vezes por semana, o que é bom. Apesar de ter pouco público, eu tenho estado muito satisfeito com o efeito do blog até o momento, e estou ansioso para poder me dedicar a ele mais uma vez.

Por enquanto é só. Agora, de volta aos estudos.

The Internet Weekly #8 e #9

The Internet Weekly é uma série de posts semanais contendo coisas interessantes que eu achei por aí. A maioria delas é em inglês. Você pode ver todos os posts dessa série clicando aqui.

Peço desculpas pelo atraso. A vida anda dura.

Robô engana 25% dos juízes de um Turing Test

No dia 12 de outubro deste ano foi realizada mais uma edição do Loebner Prize for Artificial Inteligence, um concurso que basicamente reproduz um Turing Test (do qual eu falei um pouco aqui). Eles premiam o criador da IA que chegue mais perto de passar no teste, e os resultados deste ano foram impressionantes. O vencedor se chama Elbot, e ele conseguiu enganar 3 dos 12 juíses. Não só  eles acharam que o Elbot era humano, como que o humano com o qual estavam conversando era na verdade uma máquina. Impressionante? Bem, você pode conferir por si mesmo e falar com uma das versões desse AI por este link.

Lista de software para Mac

Um membro de um fórum que eu frequento, o Wordman, que também tem um blog, é programador e se interessa muito por produtos da Apple. Ele criou uma lista de software para Mac que ele recomenda. Ele não incluiu nada muito óbvio, como o iTunes ou o Apple Mail. Como essa lista me ajudou muito quando eu troquei de sistemas, eu achei que vocês, inclusive aqueles entre vocês que não falam inglês, gostariam de vê-la. Então eu a traduzi:

http://forty-two.feacia.com/recomendacoes-do-wordman-em-aplicativos-para-o-mac-osx/

The Internet Weekly #7

The Internet Weekly é uma série de posts semanais contendo coisas interessantes que eu achei por aí. A maioria delas é em inglês. Você pode ver todos os posts dessa série clicando aqui.

Prospectos

O Forty-Two tem quase dois meses agora, e eu acho que eu entendi o que eu quero fazer dele. Para começar, acho que esta rotina de updates está razoável por enquanto. Eu tenho tido bem pouco tempo livre, então dificilmente posto fora de finais de semana. Meu rítmo deve aumentar a partir do ano que vem. Em segundo lugar, eu gostaria de dar uma direção para ele. Por enquanto, eu decidi etiquetá-lo como “Um blog que trata de assuntos do século XXI”. Não é muito específico, mas fala mais do que “Respostas para a Vida, o Universo e Tudo o Mais”. Depois, eu tentei descobrir qual é o tipo de coisa que tinha dado certo com a “audiência”. Analizando os posts das três pessoas que comentaram, eu decidi que vou tentar fazer mais do seguinte:

  • Traduções: a tradução que eu fiz do Plastic Bugs deu bastante certo, me parece. Eu pretendo traduzir coisas do Google Blog também (eles não responderam meu email perguntando se eu podia, o que obviamente só pode significar que eu posso).
  • Matérias sobre tecnologia: não sei se as pessoas gostam delas, mas eu gosto.
  • Links: o Internet Weekly é fácil de fazer e proveitoso.

Dito isso, eu gostaria de agradecer a todos os (três) usuários que já postaram aqui, e especialmente ao Jefferson, que escreve no Crônicas Artonianas, pelo suporte.

A Farsa dos Quadrinhos

Este artigo contém spoilers sobre o quadrinho Watchmen.

Imagine um universo onde super-heróis existem. Eles não são, porém, fantásticos ou sobre-humanos; as únicas coisas que os diferenciam das outras pessoas, na verdade, são que eles fazem justiça — da forma que lhes convêm — e que andam por aí trajando fantasias. A outra peculiaridade desse universo é que, na metade do século XX, um físico chamado Jonathan Osterman foi envolvido em um acidente de laboratório que fez com que ele ganhasse poderes divinos. A exata natureza das suas habilidades não fica clara, mas ele parece poder alterar a matéria da forma que ele quiser. Ele pode transmutar átomos, levitar objetos, teleportar-se, desintegrar coisas e aumentar o próprio tamanho. Ele pode até formar um novo corpo para si, caso um de seus corpos seja destruído. Osterman é americano, e ele apoiou o governo de seu país durante a Guerra do Vietnã. Em consequência disso, os Estados Unidos ganharam a guerra, e a URSS nunca se desfez. Esse universo está no que seria equivalente aos nossos anos 80, e a Terra está a prestes a entrar em uma guerra nuclear entre os soviéticos e os americanos.

Capa dos Watchmen em uma edição moderna

Capa dos Watchmen em uma edição moderna

Assim é o cenário descrito por Alan Moore em seu magnum opus, o Watchmen, que deve estrear em sua versão cinematográfica em março do ano que vem. Dizer que algo é a obra-prima de alguém como Moore é de fato significativo. Essa série de quadrinhos (com 12 volumes) foi um marco na indústria dos comics. Não só ele foi um trabalho de metalinguagem então inédito, como também uma publicação de literatura repleta de simbolismo. Por isso, o Watchmen transcende o que os quadrinhos eram na década de 80 (ou antes de Alan Moore, alguns diriam), e alcança o estado de obra de arte. Alan Moore não tenta fazer com que seus trabalhos mimetizem outros gêneros; ele busca explorar tudo o que graphic novels têm a oferecer. Por isso, uma grande quantidade de fãs argumenta que o Watchmen é simplesmente impossível de converter para cinema. Eles citam casos como o do volume Fearful Symmetry, onde cada quadrinho tem forma simétrica ao quadrinho diametralmente oposto a ele. Essa e outras técnicas não podem ser transportadas para outros gêneros.

Nesta página, não só os quadrinhos são simétricos, como as cores predominantes neles são "opostas" (cores frias se tornam cores quente e vice-versa) aos quadrinhos do outro lado do eixo de simetria.

Veja como cores quentes e frias se alternam nestas páginas do Fearful Symmetry

Somos apresentados à história pelo diário de um dos Vigilantes, o Rorschach. Ele incorpora — ou melhor, é um produto de — o mundo decadente e podre em que o planeta Terra se tornou. Enquanto Rorschach, ele é, talvez, o único dos Vigilantes que não tem ambições pessoais. Ele sabe que o mundo está prestes a ser destruído em um inferno nuclear, e ele sabe que, não importa o que ele faça, suas ações não terão muita diferença no resultado final das coisas. Mesmo assim, ele não se rende. Ao mesmo tempo em que defende os ideais tidos como positivos nos quadrinhos de forma geral, não entende bem o que defende. Se ele faz justiça, não é por altruísmo, mas por vingança e desgosto (e ele diz ainda no primeiro volume: “[Eles] vão olhar para cima e gritar: ‘Salve-nos!’, e eu sussurrarei: ‘Não’”). O sonho americano que ele defende morreu junto com o Comediant, mas, não tendo uma identidade para assumir (Kovaks não existe mais, ele diz), ele continua sendo apenas sua máscara de justiceiro. No volume 12, quando Rorschach tira a máscara e se permite emoção, ele é destruído.

Rorschac e sua máscara expressiva

Rorschach e sua máscara expressiva

O Comediant, que, embora esteja morto no começo do quadrinho, é um dos protagonistas, assemelha-se muito a Rorschach. A diferença principal é que ele entende plenamente que os ideias que ele defende não fazem sentido. Ele sabe que é porque esses ideais dominaram o século XX que o mundo está à beira da destruição. Diferentemente de Rorschach, ele entende plenamente seus objetivos, e, mesmo assim, os abraça. Por meio ele, Alan Moore passa uma das mais evidentes (e superficiais) mensagens do quadrinho: o sistema (republicano) é falho. A política direitista de governo americano não funciona a longo prazo. No final, ela só leva a caos. Uma das passagens memoráveis do quadrinho trata exatamente disso. Nessa passagem, relatada no volume dois, há um flashback no qual o Comediant e o Nite Owl estão contendo um protesto contra os Vigilantes. Vendo o caos nas ruas, Nite Owl começa a duvidar de suas atitudes. Em determinado momento, ele pergunta: “E o sonho americano? O que aconteceu com ele?”, e o Comediant responde: “Se tornou realidade. Você está olhando para ele.”.

Muito acima de tudo isto está Jon Osterman, o Doctor Manhattan. Por várias alusões (como por sua cada vez maior insistência em usar seus poderes, culminando com ele andando sobre a água no volume 12), Moore mostra que ele é uma espécia de Übermensch nietzchiano, um Superhomem, um deus. Mas o Deus cristão não existe no mundo dos Watchmen. Todo o sub-enredo de Rorschach e seu psiquiatra servem para mostrar que Deus não existe. Ele morreu. Manhattan é o novo deus, o deus do século XX, nascido da ciência. Além de mover o enredo, Moore também usa esse personagem como doutrinador de uma outra corrente filosófica: o Determinismo. Tudo o volume 4 é direcionado a esse objetivo. Embora isso não se relacione muito com resto do enredo, a ênfase dedicada a essa idéia deixa claro que esse é um dos pontos filosóficos principais da série.

Doctor Manhattan divinizado

Doctor Manhattan divinizado

Por fim, entre os personagens de forte valor moral no quadrinho, está Ozymandias. Neste ponto entra em jogo outro exemplo de como alguns detalhes do quadrinho podem mudar completamente seu sentido: cada volume do Watchmen termina com uma citação; o volume 11 termina com dois versos do poema Ozymandias, de Percy Shelley: “Meu nome é Ozymandias, rei dos reis/Contemplem minha obra, poderosos, e se desesperem!”. À primeira vista, a citação poderia estar lá apenas para louvar Ozymandias (o personagem) e seus trabalhos, expostos no mesmo volume. Pesquisando sobre o poema completo, porém, descobre-se que Shelley na verdade expõe a fragilidade da humanidade defronte ao tempo, e zomba de sua arrogância. Isso dá um sentido completamente diferente ao personagem, que passa a ser de herói/vilão a simplesmente outro humano (ainda que um humano excepcional, que atinge o máximo de seu potencial) com crises de personalidade.

Em paralelo direto com Ozymandias, e talvez em parte como explicação para sua personalidade, está o que talvez seja o maior trunfo de Watchmen. Em algumas páginas entre partes do enredo principal, há a história do Tales of the Black Freighter. Essa história-dentro-da-história não só é uma inovação no gênero de HQs, como também é uma chave para entender o enredo principal. Ozymandias, como Rorschach, e como a política dos EUA durante a maior parte do século XX, tentou combater uma força que se opunha aos seus ideais. Nesse conflito, ele se tornou essa força.

Trecho do Black Freighter

Trecho do Black Freighter

Os outros dois Vigilantes que, junto com Rorschach, formam o corpo principal dos protagonistas são Nite Owl e Juspeczyk. Eles são, na história, os personagens inocentes. Nenhum deles está seriamente engajado na luta pela defesa de seus ideiais (Juspeczyk nunca escolheu ser Vigilante, e Nite Owl o fez como prática de um hobby). Diferente de personagens mais extremos, como Rorschach e Ozymandias, eles buscam realizar seus objetivos pessoais antes de qualquer outra coisa. Quando eles descobrem os planos de Ozymandias no final da história, depois de um choque inicial, eles continuam vivendo. Buscando conforto um no outro, eles conseguem seguir em frente. Assim, de certa forma, eles são os únicos personagens sãos do quadrinho. A insinuação dessa ideia é que, em um mundo terrível, a única coisa que faz sentido é buscar a felicidade. Manhattan compreende isso quando ele vê os dois juntos no volume 12 e, sorrindo, vai até Ozymandias para anunciar que ele vai para uma “galáxia menos complicada”.

Alan Moore disse que seu objetivo no Watchmen era criar algo que convencesse o mercado que gibis não são coisa de criança. Ele fez muito mais do que isso. Ainda mais que em seus trabalhos precedentes, Moore criou uma obra de arte. Sua sátira-homenagem ao gênero dos quadrinhos é literatura — e merece ser tratada como tanto. A adaptação para o cinema que deve sair em 2009 certamente não poderá transportar tudo o que o original tem, pois nenhuma transferência de mídia é perfeita. Esperemos, porém, que o filme tenha um pouco do que colocaram no V de Vingança, e seja bom o suficiente para entreter.

iClipping

Quem assina muitos RSS, especialmente relacionados a notícias, tem um problema: o volume de novos itens para leitura é muito grande, enquanto nosso tempo é muito curto. Para piorar o problema, qualquer provedor de notícias terá uma quantidade muito grande de conteúdo que é inútil ou desinteressante para você. Como resultado, pessoas que acompanham notícias pela internet gastam muito tempo passando por títulos de matérias que não lhes interessam. Se você, como eu, tem interesse por notícias brasileiras, internacionais, econômicas e científicas, provavelmente terá que assinar quatro feeds diferentes só para suprir essa parte da sua necessidade de informação. Esse problema tem algumas soluções, a maioria delas relacionada a racionalização de tempo, mas, até agora, não fiquei sabendo de nenhum serviço virtual que resolva o problema de forma eficiente. Eu pensei em uma solução, que batizei de iClipping.

O iClipping que eu imaginei teria duas partes. A primeira consistiria em um distribuidor de notícias gerais capaz de indexar uma imensa quantidade de conteúdo, incluindo sites de notícias externos, blogs, sites de notícias específicos e jornais online gratuitos. Um bom exemplo de alguém com essa capacidade é o Google News, que poderia ser expandido e extendido para cobrir blogs também. A segunda parte seria um addon para browsers. Esse addon gravaria informações sobre os sites que você visita enquanto navega, adicionando informação seletivamente para cobrir apenas o que está relacionado a interesses, e permitiria que você mostrasse para ele de forma bem simples (por uma hotkey, por exemplo) o que é relevante para você. Esse addon então trabalharia essa informação e geraria uma série de tags que descrevem seus interesses, que ele então enviaria para o servidor de notícias descrito anteriormente. Esse servidor então percorreria toda sua biblioteca e selecionaria apenas as notícias que interessassem a você. Essas notícias seriam alimentadas a um RSS feed. Legal, não? Melhor que legal, também não é muito difícil de construir, dado que você tivesse acesso a um indexador de notícias muito grande e alguma capacidade de programação.

Outras ferramentas do iClipping poderiam incluir um painel de configurações, onde você pode permitir que ele alimente seu feed com notícias muito relevantes, mesmo as que não estejam entre seus interesses diretos (assim evitando que grandes acontecimentos, como a crise financeira, passem despercebidos) e um limite para o número de itens diários que você está disposto a receber em seu RSS. Para feeds de sites que, de forma geral, interessam o usuário, mas podem ter conteúdo desnecessário, o sistema poderia servir como um filtro, descartando conteúdo incompatível e repassando apenas o que seria interessante. Dessa forma, você poderia assinar um site como o Boing Boing e ler apenas notícias sobre crítica social, ou tecnologia, ou copyright, ou qualquer outra coisa.

Enfim, eu acho que um projeto desses vai além das minhas capacidades. Mas se você se interessar em colocar essa coisa em prática, vá em frente! Isso será um favor para toda a Internet, e não seria difícil de lucrar com a coisa. Eu só peço que você coloque um link para o Forty Two, mostrando de onde veio a idéia…